Amanhã, talvez

 

Caminhou três dias debaixo de um sol muito forte. As costas doiam muito, os pés estavam inchados e tudo o que queria era um bom chuveiro e uma cama macia com lençóis limpos. Se tivesse por ali uma mulher jovem para acariciar suas costas, massagear os cabelos, e faze-lo reviver seria ótimo. Mas já se sentiria feliz apenas com o chuveiro e a cama. Nos três dias que andou perdido na mata caminhava sem rumo e já tinha perdido há muito a direção de onde havia quebrado o carro. Em vez de caminhar pela estrada, teve a brilhante ideia de cortar caminho pela mata.

Era já o terceiro dia e nada de encontrar uma saída no meio daquelas lianas que se agarravam nas árvores e cortavam sua passagem a todo momento. O calor infernal tornava a caminhada mais estafante. Vez ou outra ouvia um grito, mas logo em seguida descobria um pássaro estridente.

O sol já ia descer no horizonte e a ideia de passar mais uma noite no meio do mato começou a aterrorizá-lo. Pelo menos não havia sinal de chuva. Bom e mau sinal. Bom porque não corria o risco de ficar regelado e perdido e péssimo porque seria mais um dia sem água e a sede começava a produzir tosse sem fim. A garganta seca picava como veneno de cobra. Não aguentaria caminhar mais um quilômetro sequer nessas condições.

As pernas começavam a não responder. Só percebeu que o sol nascia quando abriu os olhos e uma jovem em roupas humildes lhe tocou o braços. Tentou se levantar, mas o corpo não respondeu. A jovem murmurou alguma coisa incompreensível e correu. Ele tentou chamá-la mas não tinha mais forças.

Meia hora depois a jovem voltou, com dois homens, seu pai e irmão. Eles o ergueram e o levaram até uma pequena casa no meio de uma clareira. A única coisa que conseguiu falar foi “água”. Bebeu em pequenos goles. A mulher providenciou uma sopa rala mas forte o suficiente para que ele recuperasse a energia.

O líquido fazia sentir-se melhor. Pouco melhor. Precisaria mais que isso para volta à vida. A jovem se agachou e com um pano molhado em uma mistura de álcool e ervas, começou a esfregar seu corpo. Passou nas costas, no peito, nas pernas, na barriga. Sentiu o sangue corre, sentiu-se reviver. Olhou para a jovem e só teve forças para dizer: “amanhã talvez, quem sabe…”

Anúncios

12 Comentários (+add yours?)

  1. Marcos Garcia
    jun 14, 2011 @ 21:48:05

    Belo minha amiga, gosto de ler teus escritos, ao menos aqui não temos as más energias constantes em nosso cotidiano, e que voce, em sua profissão é obrigada a conviver.
    Quero em breve ter um livro teu, com uma dedicatória.
    Obrigado
    Beijos

    Responder

    • mteresabr
      jun 14, 2011 @ 21:54:41

      é mais ou menos para não dizer que não falei de flores, rsrsrsr

      Responder

  2. Moacyr Castro
    jun 14, 2011 @ 23:58:50

    Quero mais
    Beijo

    Responder

  3. Ana Lu
    jun 15, 2011 @ 01:02:32

    Terê, adorei o personagem! Meu deus, o “amanhã talvez, quem sabe…” sorte do LC que não fui eu a estar na mata. It’s a joke!! Gostei, denso!!

    Responder

  4. Luci
    jun 15, 2011 @ 01:04:53

    Terê, imperícia, o comentário acima é meu, claro, não da Ana Luiza (hehe) bjs.

    Responder

  5. Luci
    jun 15, 2011 @ 01:06:04

    Terê, adorei o personagem! Meu deus, o “amanhã talvez, quem sabe…” sorte do LC que não fui eu a estar na mata. It’s a joke!! Gostei, denso!!
    Enfim, o comentário é este!! (hehehe!)

    Responder

  6. Euzeni Bruna
    jun 15, 2011 @ 14:33:59

    Terê, só com uma bussola eu entraria na mata, e olha lá…he he . Que bom é poder ter um amanhã…..Lindo conto amiga
    Bruna

    Responder

  7. Evaristo Eduardo de Miranda
    jun 15, 2011 @ 15:34:56

    Gostei demais desse conto.
    Até por ter vivido uma situação um pouco semelhante (menos dramática).
    Adoro seus contos e haikais.
    Inté,

    Evaristo

    Responder

  8. Marlene Simarelli
    jun 16, 2011 @ 13:47:12

    simplesmente lindo! E seus haicais estão cada dia melhores. Bjs

    Responder

  9. antonio contente
    jun 18, 2011 @ 11:56:56

    Como o cronista Moacir Castro, também quero mais. Além de repórter esplêndida você me surpreende com este belo conto. Mais, mais…

    Responder

  10. Dona Maria
    nov 11, 2012 @ 14:41:41

    Achei muito interessante um homem quebrar o carro e preferir retornar por
    dentro do mato, perdendo-se pela floresta. Não ficou muito claro para mim se o carro quebrou ou se ele sofreu um acidente indo parar dentro do mato sem escolha teve que caminhar na mata ou se quebrou o carro e foi andar dentro do mato, onde não teria ajuda imediata e ainda podia encontrar-se com um animal peçonhento ou com a caipora….Seria mais seguro andar por ali ou estava tentando se esconder?Pela estrada poderia ser atropelado, assaltado, morto ? Será que indo pela estrada não poderia encontrar ajuda mais rápido? Grande espirito de macho aventureiro! No seu pensamento uma mulher como a solução para a escolha dos prazer e consequências muito boas como prêmios da aventura. A escrita para o público deve servir ao público .Senão não terá sentido. Mas, é apenas um conto.Muito interessante.

    Responder

    • mteresabr
      nov 11, 2012 @ 19:55:46

      usei uma idiotice que eu mesma fiz: o carro pifou em uma vicinal, achei que devia cortar caminho por uma fazenda e me lasquei

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: