Apareceu a margarida

nudez1

Antônia nasceu para ser mulher de um homem só. Mesmo nas noites em que ficava na varanda esperando aquele homem chegar cheirando perfumes baratos, nunca pensara em dividir sua cama com outro homem. Havia se casado com as bênçãos da santa madre e iria até o fim da vida daquele jeito. Esperaria tantas noites quando agüentasse acordada para ter um pouco do amor daquele homem
Era uma rotina que doía na alma. Horas e horas sentada na varanda, olhando o céu a espera de uma estrela cadente. Fazia apostas com o céu. Se uma estrela rasgasse o céu, é porque ele já estava cruzando a esquina. Mas, nem a estrela cruzava o céu e nem ele estava na esquina.
Não faz mal. Não se deve fazer apostas com o céu. Mas se um cachorro latisse até ela contar até dez, então ele chegaria e a beijaria como nunca. O cachorro não latiu.
Noites e noites. Às vezes ela dormia cansada de tanto esperar. Ele chegava e não queria acordá-la. Dormia tão bonito que era uma pena despertar uma mulher tão linda. E lá ia ele para o quarto e ela lá fora, na varanda, até o sol começar a aquecer seu rosto e ela despertar.
O café da manhã, que sempre acalma a alma, só fazia esquentar a discussão que acabava quase sempre com olhos marejados, boca trêmula e arrastões violentos até a cama. Era o jeito dele de parar a briga e o dela de ter algum amor.
Parecia doença. Ela precisava do jeito brutal dele e ele precisava de todo o envergonhamento dela. Excitava-se muito quando via que ela cruzava os braços na altura dos seios para esconde-los. Ficava enlouquecido quando ela se agachava, nua, para que ele não olhasse tanto suas pernas nuas, sua barriga, suas nádegas.
Era sempre tudo muito rápido. Nem beijo havia. Às vezes ela achava que seria a última vez. Mas Antônia não teria nunca coragem de dizer a ele o que queria. Tinha medo da violência dele. Submetia-se ao amor rápido, sem carícias a não ser aquelas estritamente necessárias para a excitação dele.
A noite caía, igual a anterior, e ela estava lá na varanda de novo. Esperava por ele. Na rua, alguns homens passavam e olhavam para ela, ali a espera. Um fez gracejo, outro assobiou, outro abriu o portão. Esse chegou à varanda. Ela, assustada, ficou em pé. Seu corpo tremeu, sua boca umedecida se abriu para dizer alguma coisa, mas foi calada por um longo beijo. Não reagiu. Entregou-se ali mesmo, na varanda, onde tantas noites sentiu frio e sono e esperou. Mas hoje é diferente. Antônia descobriu, finalmente, que seu nome era Margarida. E as margaridas adoram ser desfolhadas

2 Comentários (+add yours?)

  1. marcos garcia
    ago 04, 2010 @ 01:42:48

    Contar uma historia é um dom raro, necessita-se ser uma segunda pessoa, aquela que olha e sente, de dentro da alma, a cena. Muito bom te saber artista. Beijos

    Responder

  2. rosa helena
    ago 04, 2010 @ 11:31:09

    Ainda bem que ela se descobriu Margarida… a vida é curta demais para não se deixar desabrochar…

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: