Mulher completa

amantes

Os braços eram fortes, as mãos grandes e elegantes, o peito tinha belas formas, abundantes pelos e a barriga era reta, com gomos de excitantes músculos. Parecia um deus. Na rua, as mulheres não resistiam e voltavam a cabeça para olhar. Os homens, bem, os homens achavam que ele era gay. Pura inveja. Como se não bastante tanta beleza física, ele ainda era dono de uma generosidade impar. Dividia um quarto com um brutamontes em uma pensão de quinta, na parte mais sórdida do centro da cidade, e mesmo alérgico a cigarros, agüentava a fumaceira que o companheiro fazia toda noite no quarto. Não reclamava. Pensava sempre que aquela situação era temporária e que, mais dia menos dia, estaria bem longe dali. Não sabia como, mas toda manhã falava para si mesmo que, enfim, um dia a menos naquele lugar.
O brutamontes era um desocupado em busca de emprego rezando para não encontrar. Havia chegado havia cinco meses na cidade e tudo o que fazia era passar os dias atrás das prostitutas que ficavam no centro. Como não podia levar mulheres na pensão onde morava, tratava sempre de criar situações para burlar a vigilância e entrar com uma delas no quarto. Quando isso acontecia, o companheiro de pensão costumava sair para umas voltas na quadra até que ele terminasse o que tinha ido fazer.
Foi numa dessas voltas que encontrou  uma mineira do sul que deixara filho com a mãe e viera para São Paulo tentar um trabalho que desse garantia de sustento a sua mãe e filho. Não queria que o garoto enfrentasse a miséria. Mas fazer o que? Não havia trabalho para quem pouco sabia ler. O jeito foi ficar pelas esquinas se oferecendo. Ele já a tinha visto antes, mas não atentara para a beleza dela. Dessa vez, sabe-se lá por que, prestou atenção. De longe observou-a assediando aqueles homens que passavam, carregando sempre uma pequena maleta com a marmita. De longe ele pensava em quanto ela poderia ganhar com aqueles maltrapilhos que dificilmente teriam renda.
Ficou olhando muito tempo. Horas. Ela não atraiu nenhum deles. Seria mais um dia sem dinheiro, como tantos outros que enfrentava. Ele olhava tanto que acabou chamando a atenção. Ela se aproximou e perguntou “tá olhando o que? Gostou?” Ele só respondeu que estava imaginando.
– Imaginando o que, criatura?
– Em como você tem estômago para agüentar?
– É fácil. Fico pensando que estou com o homem que amo
Ele foi-se embora achando que ela tinha imaginação demais. Chegou na pensão e o brutamontes já tinha saído. Deitou-se na cama e ficou lá, pensando na mulher que pensava no homem que amava enquanto se deitava com qualquer um que lhe pagasse R$ 20,00. Aquela história ficou martelando na sua cabeça . Afinal ele não precisava pensar na mulher que amava para se deitar com qualquer uma. Mas as mulheres são diferentes. Elas precisam se apaixonar e se não conseguem quem amam, então fazem de conta.
– No fundo, somos todos iguais – pensou, enquanto pegava um jornal para olhar os classificados e ver se encontrava algum emprego.
Olhou, olhou, olhou. Bateu os olhos na página que anunciava massagens, homens e mulheres. Parou em um anúncio que dizia: “Morena sensual, completa. Fone 96421378”. Ligou.
– Oi, vi o anúncio.
– Quando vai querer?
– Agora, pode ser?
– Quando quiser amor
– Como encontro você?
– Você não me encontra, eu encontro você. Dá o endereço
– Prefiro pegar você; Onde está?
– No centro
– Também estou no centro- Na praça, atrás da igreja.
E lá foi ele encontrar a mulher completa. Quando chegou na praça, viu a mineirinha. Ficou feliz. Tinha gostado dela e se excitou com a idéia de arrasta-la para a pensão e imitar as artimanhas do brutamontes para fazer uma mulher entrar na pensão sem ser vista.
– Que surpresa ser você a mulher do anúncio
– Anúncio?
– É. Falei com você agora mesmo pelo telefone.
– Não, comigo não. Você deve ser falado com aquela ali. Ela é quem coloca uns anúncios no jornal
Ele seguiu com os olhos para a direção apontava e viu a mulher completa anunciada. Era feia. Muito feia. Com uma gordura toda localizada na barriga. Usava uma saia curta e justa e que a deixava como um colchão amarrado ao meio. Um horror. Daria certo se ele pensasse na pessoa que amava?

3 Comentários (+add yours?)

  1. Denio Benfatti
    fev 03, 2009 @ 23:15:36

    Gostei deste seu lado, lembram um ar de Nelson Rodrigues, doce e feminino. Outra coisa.

    Responder

  2. almir reis
    jul 21, 2010 @ 21:14:07

    show!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Responder

  3. rosa helena
    ago 04, 2010 @ 11:19:52

    Um texto real. A beleza está nos olhos de cada um, está na maneira como a gente ‘vê’ o outro.

    Responder

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